A culpa é do La Fontaine!

Será que é possível ser apaixonado pelo emprego?
Na famosa fábula da “Cigarra e da Formiga”, Jean de La Fontaine apresenta-nos duas personagens antagónicas. Por um lado, a cigarra fanfarrona e divertida, que passa o verão a cantar e a dançar, entretendo o resto dos animais. Por outro lado, a formiga trabalhadora e sofredora, que até gostava de se divertir mas é forçada a amealhar para poder comer durante o inverno.
Se bem se recordam, a cigarra trocista goza com a responsável formiga, não fazendo caso dos avisos da mesma e depois indo humildemente pedir algo para sobreviver.A questão falaciosa desta fábula é que faz crer que só existem estas duas formas de encarar o trabalho e tal não é verdade…
O facto de desde criança recebermos esta mensagem, que só podemos escolher uma destas hipóteses, ajuda a inconscientemente condicionar um pouco a ideia que o trabalho deve ser sério, custoso e chato e que a diversão e a cantoria só resultam em prazer no curto prazo e muita fome e dor no longo prazo.
Se aliarmos isto ao facto de muitos de cerca de 70% dos adultos não gostarem muito do que fazem e conscientemente ou não passarem essa mensagem aos filhos, resulta em muitas pessoas que nem sequer concebem que podem fazer algo apaixonante e por isso nem sequer alguma vez pensaram nisso nesses termos.
Após ter estado com mais de 30.000 pessoas nos últimos 8 anos, sinto-me muito confiante ao dizer que está na nossa natureza amar o nosso emprego e que é possível ganharmos a vida a fazer algo que nos apaixone.
Quando falo sobre a temática da empregabilidade e da carreira gosto de trazer esta questão para o consciente dos ouvintes e incitar algumas dinâmicas que nos podem ajudar a descobrir qual a nossa vocação.
Como devem imaginar, existe uma imensidão de exercícios e testes para nos ajudar a descobrir o que mais gostamos, as nossas competências transferíveis ou áreas que nós gostamos.
Sem entrar em pormenores sobre esses exercícios, acredito que a nossa paixão, estará na confluência de 3 factores:
- Prazer. O que é gosto de fazer, que atividades me dão tanto gozo que me esqueço do tempo, o que me põe um sorriso nos lábios quando penso em executar?
- Aprendizagem. Que assuntos procuro saber mais sem ser obrigado, quais os temas que me interessam ao ponto de ver programas, livros e artigos?
- Relevância. Que momentos ou ações eu realizo e tem um significado especial, o que é que eu sinto que tem um impacto diferente quando atinjo, o que é que alegra o meu coração quando penso em fazer.
Imagine um trabalho onde tem muitas tarefas que adora fazer, é sobre um ou vários tópicos que adora aprender e no final do dia tem a sensação de realização a um nível mais profundo… Parece algo em que iria gostar de trabalhar?
Naturalmente alguns de nós conseguem responder a estas perguntas muito facilmente e outros tem mais dificuldades.
Caso não consiga encontrar as respostas que procura, pode ser uma boa hipótese começar a procurar experiências e ambientes diferentes daqueles onde tem passado tempo, pois há um mundo fantástico à sua espera.
Quero também advertir que iniciar este processo pode implicar entrar num caminho de abertura de consciência que não poderá mais ser revertida e que pode implicar tomar decisões muito difíceis. Muitas pessoas descobrem que o curso que acabaram de fazer não é o que querem, que a carreira dos últimos anos não é o que as preenche e isso implica fazer escolhas complexas. O único incentivo que deixo ao leitor é que não há registo de ninguém que no seu leito de morte tenha dito “gostava de ter passado mais tempo no trabalho que não gostava” mas ouve-se muitos a dizer “adorava ter arriscado” ou “queria ter feito algo com mais significado para mim”.
Lembre-se que está na sua natureza adorar o seu trabalho, encontrar um propósito de vida, sentir verdadeira realização e ser profundamente feliz.

Ricardo Peixe
Coach Alta Performance, Trainer & Speaker